Tecnologia

Governo digital em consulta pública: como a tecnologia pode mudar os serviços que o brasileiro usa

Estratégia Nacional de Governo Digital recebe sugestões até 21 de junho e pode impactar saúde, documentos, segurança e atendimento público.

O governo digital voltou ao centro da agenda brasileira com a abertura da consulta pública para revisar a Estratégia Nacional de Governo Digital, conhecida como ENGD. O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos recebe contribuições da sociedade até 21 de junho de 2026 pela plataforma Brasil Participativo. A dúvida que interessa ao cidadão é prática: isso pode mudar a forma como brasileiros acessam documentos, benefícios, saúde, educação, impostos e serviços públicos? A resposta é sim, desde que a revisão saia do papel com foco em qualidade, segurança, inclusão e integração entre União, estados e municípios. A tecnologia pública já faz parte da rotina nacional, especialmente pelo Gov.br, mas ainda há desafios de linguagem, acesso, proteção de dados e atendimento humano. A consulta é uma oportunidade para discutir que tipo de Estado digital o Brasil quer construir nos próximos anos.

Por que a Estratégia Nacional de Governo Digital importa agora

A Estratégia Nacional de Governo Digital orienta como o setor público deve usar tecnologia para entregar serviços melhores, mais simples e mais seguros. Ela não trata apenas de colocar formulários na internet. O objetivo é organizar diretrizes sobre identidade digital, privacidade, segurança, infraestrutura, dados, inovação, qualidade dos serviços e integração entre governos. O decreto que instituiu a ENGD definiu uma política nacional para o período de 2024 a 2027, com participação da Rede Nacional de Governo Digital. Agora, a consulta pública busca atualizar recomendações e ouvir cidadãos, gestores públicos, especialistas, empresas e organizações sociais.

O momento é relevante porque o Brasil já digitalizou parte importante da relação entre Estado e população. Em março de 2026, o Gov.br alcançou 175 milhões de usuários, com acesso a mais de 4.600 serviços digitais federais e outros 8.700 serviços de estados e municípios. Isso significa que governo digital deixou de ser uma pauta técnica e virou infraestrutura cotidiana. O brasileiro usa plataformas públicas para acessar Meu INSS, Carteira de Trabalho Digital, Carteira Digital de Trânsito, Enem, Fies, Meu SUS Digital, assinatura eletrônica e outros serviços essenciais. Quando uma estratégia desse porte é revista, o impacto pode chegar à fila do atendimento, ao tempo de espera, à segurança da conta e à facilidade de resolver problemas sem deslocamento.

O que pode melhorar para quem depende de serviços públicos online

Para o cidadão, a principal expectativa é que serviços digitais fiquem mais simples, integrados e confiáveis. Hoje, muitas pessoas já conseguem resolver questões sem sair de casa, mas ainda enfrentam problemas como linguagem complicada, exigência de muitos passos, falhas de autenticação, dificuldade para recuperar senha e falta de atendimento claro quando algo dá errado. A revisão da estratégia pode ajudar a definir padrões melhores de experiência do usuário, acessibilidade, comunicação e suporte. Em um país grande e desigual, digitalizar não basta; é preciso garantir que a pessoa consiga entender, acessar e concluir o serviço.

Outro ponto decisivo é a inclusão digital. Segundo o IBGE, a internet chegou a 74,9 milhões de domicílios brasileiros em 2024, o equivalente a 93,6% dos lares. O dado mostra avanço expressivo, mas também revela que ainda existem pessoas fora da conectividade plena, especialmente em áreas rurais, periferias, grupos de baixa renda e faixas etárias com menor familiaridade tecnológica. Por isso, governo digital não pode significar fechamento de portas físicas ou abandono de quem precisa de ajuda presencial. A tecnologia deve reduzir barreiras, não criar uma nova forma de exclusão. Um serviço público moderno precisa funcionar no celular, respeitar acessibilidade, oferecer canais alternativos e proteger quem tem menos habilidade digital.

Segurança, dados e confiança serão o maior teste do governo digital

A expansão dos serviços digitais aumenta também a responsabilidade sobre segurança. Quanto mais documentos, cadastros, assinaturas e benefícios passam por plataformas online, maior é o valor dos dados pessoais ali concentrados. A conta Gov.br já possui diferentes níveis de segurança, como bronze, prata e ouro, e orienta usuários sobre verificação em duas etapas, recuperação de acesso e cuidados contra links suspeitos. Mesmo assim, golpes digitais continuam crescendo porque criminosos exploram justamente a confiança das pessoas em serviços públicos. A estratégia revisada precisará tratar segurança não como detalhe técnico, mas como parte essencial da cidadania digital.

A confiança também depende do uso responsável de dados. Serviços públicos digitais podem se tornar mais rápidos quando sistemas conversam entre si, mas essa integração exige transparência, finalidade clara e proteção contra abuso. O cidadão precisa saber por que determinado dado é solicitado, quem terá acesso, por quanto tempo será armazenado e como corrigir informações erradas. A inteligência de dados pode melhorar políticas públicas em saúde, educação, transporte e assistência social, mas não deve transformar o usuário em alguém sem controle sobre suas próprias informações. O equilíbrio entre eficiência e privacidade será um dos pontos centrais do governo digital brasileiro.

A consulta pública sobre a Estratégia Nacional de Governo Digital merece atenção porque trata da tecnologia que organiza parte crescente da vida pública no Brasil. Ela pode influenciar como o cidadão acessa direitos, assina documentos, usa serviços de saúde, consulta benefícios, paga tributos e se relaciona com órgãos públicos. O futuro desejável não é apenas um governo mais digital, mas um governo mais simples, seguro, inclusivo e compreensível. A tecnologia deve economizar tempo, reduzir desigualdades e aumentar a confiança nas instituições. Até 21 de junho, a sociedade pode contribuir com sugestões pela plataforma oficial. Depois disso, o desafio será transformar participação em regra prática, investimento e melhoria visível para quem usa o serviço público todos os dias.

Fontes consultadas: Ministério da Gestão e da Inovação — MGI abre consulta pública sobre a Estratégia Nacional de Governo Digital. Governo Digital — Estratégia Nacional de Governo Digital. Governo Digital — Gov.br alcança 175 milhões de usuários. IBGE — Internet chega a 74,9 milhões de domicílios do país em 2024. Planalto — Decreto nº 12.069/2024, que dispõe sobre a Estratégia Nacional de Governo Digital. Governo Digital — identificação de acesso suspeito na conta Gov.br.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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