Recomeçar sozinha ou com rede de apoio muda bastante o ritmo da recuperação, segundo a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio
A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental, relações familiares e apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade, observa que recomeçar a vida após sair de um relacionamento abusivo costuma seguir ritmos bastante diferentes, dependendo de a mulher contar ou não com uma rede de apoio real e disponível ao longo de todo esse processo delicado.
Comparar essas duas trajetórias distintas e diferentes não serve, de forma alguma, para julgar quem enfrenta o recomeço completamente sozinha, mas para entender com clareza e profundidade por que o apoio externo faz uma diferença tão concreta, real e mensurável na velocidade e na qualidade dessa reconstrução pessoal e íntima.
Como costuma ser o recomeço sem rede de apoio?
Quando não existe absolutamente nenhuma rede de apoio disponível, cada etapa prática do recomeço, como encontrar moradia própria, reorganizar finanças pessoais ou cuidar dos filhos completamente sozinha, exige um esforço individual muito maior, mais solitário, penoso e mais desgastante, consumindo uma quantidade enorme de energia que poderia estar sendo direcionada para a própria elaboração emocional do que foi vivido anteriormente.
Esse tipo de trajetória solitária e desgastante costuma ser mais lenta, mais exaustiva emocionalmente e mais sujeita a recuos frequentes ao longo do percurso, não porque a mulher seja menos capaz ou determinada, mas porque cada obstáculo prático precisa ser resolvido inteiramente sem ajuda externa, o que multiplica consideravelmente o tempo e o desgaste emocional envolvidos em cada pequena conquista ao longo do caminho percorrido dia após dia.
Como costuma ser o recomeço com rede de apoio disponível?
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que, quando existe uma rede de apoio real, verdadeira e ativa, seja de familiares próximos e queridos, amigos de confiança, comunidade religiosa ou serviços de assistência social, muitas dessas etapas práticas necessárias se tornam significativamente mais rápidas e menos desgastantes, permitindo que a energia emocional disponível seja direcionada de forma mais integral para a própria recuperação interna.
Ter alguém de confiança disposto a dividir o cuidado com os filhos pequenos, uma indicação confiável de emprego adequado, ou simplesmente companhia genuína e calorosa numa noite mais difícil, reduz consideravelmente e de forma real a sobrecarga que, de outra forma, recairia inteiramente sobre uma única pessoa que já está profundamente fragilizada emocionalmente pelo que acabou de viver e enfrentar.
Onde os dois caminhos se cruzam
Em ambos os casos, sem exceção, o trabalho emocional de elaborar o que foi vivido continua sendo necessário, pessoal e intransferível, e nenhuma rede de apoio, por mais presente e generosa que seja, substitui esse processo interno de reconstrução da própria identidade e autoestima.
Taiza Tosatt Eleoterio constata que a diferença real entre os dois caminhos não está na necessidade desse trabalho emocional profundo, que existe da mesma forma em qualquer trajetória de recomeço, mas na quantidade de energia disponível para realizá-lo com consistência, já que menos desgaste prático diário costuma significar mais espaço interno genuíno para essa elaboração acontecer de forma sustentável ao longo do tempo.
Por que buscar rede de apoio não é sinal de fraqueza?
Muitas mulheres hesitam bastante em pedir ajuda por acreditarem, de forma equivocada, que deveriam conseguir reconstruir a própria vida completamente sozinhas, como se buscar apoio externo fosse admitir algum tipo de incapacidade pessoal ou fracasso íntimo diante de si mesmas.
Essa crença profundamente arraigada, na análise de Taiza Tosatt Eleoterio, ignora que nenhuma trajetória de recomeço, mesmo as que parecem mais bem-sucedidas vistas de fora, acontece de forma completamente solitária: reconhecer a importância real da rede de apoio e buscá-la ativamente é, na verdade, uma estratégia inteligente, madura e eficaz, e não uma admissão de fraqueza pessoal.



